Swami Premananda
Certo dia, Sri Ramakrishna fez um pedido a
Matangini Devi: “Matangini, posso lhe pedir uma coisa?" “Sim, senhor! Qualquer
coisa que o senhor quiser,” respondeu Matangini. “Você poderia me dar seu filho?
Eu gostaria de ter um rapaz de coração puro para viver aqui comigo.” Matangini
aceitou imediatamente dizendo: “Para mim, é um grande privilégio que o senhor
aceite meu filho para morar aqui com o senhor, mas será que alguém pode dar seu
próprio filho sem receber nada em troca?" Ramakrishna sorriu e perguntou: “O que
posso lhe dar então?” Com toda humildade, Matangini respondeu: “Tenho apenas
dois pedidos para lhe fazer: que eu possa sentir devoção absoluta por Deus, e
que nenhum dos meus filhos morra antes de mim.” Sri Ramakrishna aceitou os
pedidos de Matangini.
Ambos aconteceram.
Por que razão Sri Ramakrishna pediu a Matangini
que lhe entregasse seu próprio filho? Porque quando Sri Ramakrishna entrava em
alguns tipos de samadhi, ninguém podia tocá-lo; somente Baburam, por sua
pureza, era o único que tinha permissão para fazer isso. A pureza mental do
jovem Baburam era motivo de muita alegria para Sri Ramakrishna.
Matangini vivia num vilarejo chamado Antpur, há 60 km
de Kolkata. Por vezes vinha visitar a cidade sozinha. Assim que conheceu Sri
Ramakrishna, por intermédio de alguns parentes, logo entendeu que sua busca
espiritual começava a florescer.
Matangini Devi era a mãe de Baburam, o jovem puro que, tempos mais tarde, veio a se tornar Swami Premananda. Mulher muito devota, muitas vezes, a mãe de Baburam fechava as portas de sua casa e passava o dia inteiro em meditação. Seu filho foi um homem santo que viveu em estreito contato com uma encarnação divina.
Baburam nasceu no dia 10 de dezembro de 1861. Após alguns anos de estudos na escola do vilarejo, seus pais o enviaram para Kolkata, que ficava bem próximo dali. Nessa cidade, Baburam continuou seus estudos até entrar para a Universidade. Foi nessa época que começou a ter contato com Sri Ramakrishna.
Baburam estava em busca de um guru para guiá-lo em sua vida espiritual. Certo dia, foi visitar Harisabha para assistir a uma palestra e, então viu Sri Ramakrishna pela primeira vez, e assim começou seu contato com ele.
Logo depois disso, ele foi a Dakshineswar para visitar Sri Ramakrishna que o recebeu com todo carinho. Nesse primeiro encontro em Dakshineswar, Sri Ramakrishna conversou muito com Baburam e ficou muito contente ao perceber que ali se encontrava um devoto de altíssimo nível. Naquela noite, Baburam e seu amigo decidiram permanecer no templo do Dakshineswar. Durante a madrugada, Ramakrishna saiu de seu quarto, se aproximou deles e perguntou: “Vocês estão dormindo?” “Não senhor”, responderam eles. “Sabe que já faz muito tempo que não vejo Narendra. Sinto meu coração apertado, como se alguém o estivesse torcendo como uma toalha. Por favor, peçam a Narendra que venha me visitar, pelo menos uma vez. Narendra é o próprio Narayana. Se não posso vê-lo, não tenho paz.”
Essa cena se repetiu várias vezes. No dia seguinte, Sri Ramakrishna estava totalmente diferente e conversou com todos normalmente. Baburam entendeu, porém, o que significa o amor puro de um ser divino por seus discípulos espirituais. Três dias depois, quando Baburam foi visitar Sri Ramakrishna novamente, encontrou-se com Narendra [Swami Vivekananda] e, ao conhecê-lo, logo entendeu a razão pela qual Sri Ramakrishna estava tão ansioso para vê-lo.
Sob a orientação de Sri Ramakrishna, Baburam cresceu espiritualmente e alcançou níveis espirituais cada vez mais elevados. Certo dia, Sri Ramakrishna comentou com os outros devotos que havia tido uma visão na qual Baburam era uma parte de Sri Radha que havia encarnado novamente para ensinar a devoção a todos. Revelou, também, que Baburam era nityasiddha, o eternamente perfeito. Ele queria que Baburam vivesse perto dele em Dakshineswar para poder ajudá-lo. Foi Sri Ramakrishna que encorajou Baburam a ler as escrituras sagradas.
Quando Sri Ramakrishna adoeceu e teve um câncer de garganta, Baburam foi um dos discípulos que serviu o mestre com maior atenção e carinho. Depois que Sri Ramakrishna entrou em mahasamadhi e deixou seu corpo para sempre, Baburam voltou para seu vilarejo por algum tempo e permaneceu na casa de sua mãe.
Nessa época, seus amigos, discípulos de
Ramakrishna, foram visitá-lo. Narendra era o líder desse grupo. Certa noite, no
jardim da casa Baburam, estavam todos em meditação diante de uma fogueira
quando, de repente, Narendra começou falar com muita emoção a respeito de Jesus
Cristo. Ramakrishna já lhes havia dados os hábitos de cor ocre e, diante do fogo
sagrado, aqueles jovens discípulos de Sri Ramakrishna decidiram aceitar
formalmente os votos de sannyasa, dando início, assim, à Ordem Monástica
Ramakrishna.

Todos se sentiram fortalecidos pelos votos
monásticos. Baburam recebeu o nome de Swami Premananda. Após a cerimônia, eles
se lembraram de que aquela noite era a noite de Natal. Todos ficaram muito
contentes por terem feito seus votos monásticos num dia tão sagrado como o dia
do nascimento de Jesus, que também era um monge.
Logo depois, os jovens discípulos voltaram para Kolkata e
fundaram um monastério. Sem demora, Premananda os seguiu.
Esses monges passaram a viver uma vida de muita austeridade e extrema pobreza. Não importava se havia roupa para vestir ou comida para comer, para eles, a única coisa importante era repetir os nomes de Deus, meditar, cantar, e estudar as escrituras sagradas, sempre na maior austeridade.
Depois de alguns anos assim, Premananda começou peregrinar. Visitou vários lugares sagrados — por vezes a pé, ou de trem — tendo visões e experiências divinas constantemente. Ficava sem comer por muitos dias — sempre caminhando para onde Deus o levava. Dependia totalmente da vontade divina e repetia os santos nomes de Deus continuamente. Passava muito tempo em transe extático.
Depois de alguns anos de peregrinação, Premananda voltou para o monastério da Ordem. Após a morte de Swami Vivekananda, Premananda assumiu a direção da organização, e sempre cuidou dos outros monges, noviços e devotos com carinho maternal. Todos diziam que Premananda tinha um coração de mãe. Ele realizava os rituais de adoração no templo, cozinhava para monges e visitantes e ainda cuidava dos jardins.
Premananda era a encarnação da humildade. Jamais deixou alguém perceber o poder espiritual que possuia. Certa ocasião, porém, durante uma viagem, sua divindade se manifestou publicamente, diante de todos. Tudo aconteceu assim:
Todos os dias, Swami Premananda visitava o templo de Shiva e da Divina Mãe Annapurna em Varanasi. Certo dia, ele entrou o templo da Mãe, fez sua saudação, e quando se voltava para sair, o sacerdote colocou em seu pescoço a guirlanda oferecida à Divina Mãe. Colocar uma guirlanda oferecida à divindade em alguém é uma forma de demonstrar grande respeito. Quando, ao final de alguns minutos, Swami Premananda, com toda devoção, tentava retirar a guirlanda, alguém comentou: “Não tire a guirlanda swami. O senhor fica muito belo com ela.” A simples menção da palavra ‘belo’ trouxe-lhe à mente a beleza de Deus, e ele entrou em profundo êxtase. Surpresos, todos perceberam que de seu corpo e de seu rosto emanava uma resplandecente luz divina que estava além de qualquer explicação possível. Nesse estado mental, caminhando bem devagar, Premananda começou a voltar para o monastério. As pessoas paravam para admirá-lo e abriam espaço para que ele pudesse andar sem dificuldades. Dos dois lados da rua, os comerciantes saíam de suas lojas e olhavam para ele encantados. Todos testemunharam a presença dessa luz divina e o saudaram. O milagre aconteceu diante de todos. Um monge que passava por ali percebeu que algo divino acontecia e correu para informar o chefe do centro que organizou tudo de maneira adequada para receber Swami Premananda com todo respeito. Nesse estado mental, Swami Premananda entrou no monastério e foi recebido pelo o chefe que, como forma de adoração, ofereceu flores a seus pés e celebrou o árati. Depois um longo período, pouco a pouco o êxtase divino de Premananda foi diminuindo.
Swami Premananda viveu uma vida de total entrega a Deus. Foi uma vida repleta de realizações maravilhosas como, por exemplo, o trabalho da Ordem Ramakrishna em Bangladesh. Suas visitas a esse país que, naquela época, era parte integrante da Índia provocaram uma verdadeira revolução espiritual na região, estimulando nos Bangladeshis um grande anseio por Deus.
Conhecido como a mãe de Belur Math, sede da
ordem Ramakrishna, Swami Premananda deixou seu corpo, depois de uma séria
enfermidade, no dia 30 de julho de 1918.