Profeta da Autoconfiança
Vivekananda ensinou que Deus está dentro de nós e que nascemos para redescobrir nossa própria natureza divina. Sua historia favorita versava sobre um leão que pensava ser uma ovelha, até outro leão mostrar-lhe seu reflexo na lagoa. "E vocês são leões" – dizia aos ouvintes – "vocês são almas puras, infinitas e perfeitas..." "Aquele a quem vocês suplicam e rezam nas igrejas e templos... é seu próprio Self." Ele foi o profeta da autoconfiança, da busca individual e do esforço.
Viveka é uma palavra sânscrita que significa discriminação, mais especificamente no sentido filosófico de discernimento entre o real (Deus) e o irreal (os fenômenos reconhecidos por nossas percepções sensoriais). Ananda significa felicidade divina, ou paz obtida por meio da iluminação; o sufixo frequentemente agregado ao nome monástico que o religioso adotou.
Vida
Nasceu em Calcutá, em doze de janeiro de 1863. Seu sobrenome era Datta e seus pais deram-lhe o nome de Narendranath, Naren, para encurtar. Como monge, perambulou pela Índia usando vários nomes; adotou o nome monástico de Vivekananda pouco antes de embarcar para os Estados Unidos, por sugestão do Marajá de Khetri que, juntamente como o Marajá de Mysore, pagou as despesas de viagem.
Na adolescência Naren freqüentou um colégio em Calcutá. Era um jovem de bonita aparência, atlético e extremamente inteligente. Ótimo cantor, tocava vários instrumentos. Nessa ocasião, já exercia grande poder de liderança entre os rapazes de sua idade. Seus professores estavam certos que ele estava destinado a ter um futuro brilhante.
Naquele tempo, Calcutá era o principal porto de entrada de idéias e influencias culturais européias; nenhum jovem indiano ficava imune a elas. Para enfrentar o desafio do cristianismo missionário, formou-se um movimento para modernizar o hinduismo – extinguir antigos rituais e praticas clericais, emancipar as mulheres e abolir o casamento de crianças – que se denominava Brahmo Samaj. Naren filiou-se, mas logo achou superficiais seus objetivos; não satisfaziam suas necessidades espirituais. Leu Hume, Herbert Spencer e John Stuart Mill, passando a considerar-se agnóstico. Seus pais insistiam em casá-lo; recusou-se, sentindo que devia manter-se casto e livre para devotar-se de corpo e alma a uma grande causa. Qual? Não sabia até então exatamente qual. Ainda buscava alguém ou algo que pudesse acreditar de maneira irrestrita. Por enquanto, seu espírito inquieto e corajoso ansiava pelo calor da ação.
Por coincidência, um parente de Naren era devoto de Ramakrishna e o diretor de seu colégio, o professor Hastie, era um dos poucos ingleses que havia conhecido Ramakrishna. O que esses dois disseram a respeito dele despertou a curiosidade de Naren que, em novembro de 1881, foi convidado a cantar em uma casa onde Ramakrishna se encontrava. Tiveram uma conversa rápida e Ramakrishna convidou-o a vir visitá-lo no templo de Dakshineswar, onde vivia, às margens do Ganges, a alguma distância de Calcutá.
Com Ramakrishna
Desde o primeiro momento, a personalidade de Ramakrishna despertou o interesse de Naren, deixando-o perplexo. Nunca antes em sua vida encontrara alguém como esse homem delgado, de barba, que aparentava ter quarenta e poucos anos e tinha a inocente sinceridade de uma criança. Parecia estar envolto em uma aura de intenso deleite, e vivia perpetuamente falando alto e irrompendo em canções que expressavam sua alegria e o arrebatamento que sentia por Deus sob a forma de Mãe Kali, que era para ele, evidentemente, uma presença viva. A conversa de Ramakrishna misturava sutileza filosófica com prosaicas parábolas.
Ramakrishna, com seu toque, levara Naren à porta da experiência de superconsciência, que os hindus chamam samadhi .Em samadhi todo o senso de identidade pessoal desaparece, vindo-se a conhecer o Self, a Divindade, que sendo unidade, experimenta-se como uma espécie de Vazio, em contraste com a multiplicidade de objetos que preenchem nossa consciência sensorial comum. Dentro desse Vazio, perde-se a identidade pessoal; essa perda, para quem não está preparado, necessariamente se parece com a morte.
Em 1885, Ramakrishna passou a sofrer de câncer na garganta. À medida que se tornava evidente que em breve o Mestre não mais estaria com eles, os jovens discípulos tornaram-se mais próximos uns dos outros. Naren era seu líder, junto com o jovem Rakhal, mais tarde Swami Brahmananda. Certo dia, quando Ramakrishna jazia nos últimos estágios de sua doença, Naren meditava num dos quartos do andar térreo. De súbito, perdeu a consciência do mundo exterior e entrou em samadhi (nirvikalpa samadhi). Por um momento, aterrorizado, exclamou: "Onde está meu corpo?" Outro discípulo julgou que Naren estava morrendo e subiu correndo para contar ao Mestre. – Deixe-o nesse estado por um tempo – disse Ramakrishna com um sorriso – há muito tempo ele tem pedido, com insistência, que eu lhe dê essa experiência.
Bem mais tarde, exuberante de alegria e paz Naren entrou no quarto de Ramakrishna. Ramakrishna o preveniu: - Agora a Mãe mostrou-lhe tudo, mas eu conservarei a chave. Quando você terminar o trabalho da Mãe, encontrará o tesouro outra vez. – Esta foi só uma das muitas ocasiões em que Ramakrishna deixou claro que destinava Naren à missão de ensinar ao mundo.
Em dezesseis de agosto de 1886, Ramakrishna pronunciou o nome de Kali em voz clara e sonora, passando ao samadhi final. No dia seguinte, ao meio dia, o médico declarou-o morto.
Viagens
Durante os anos de 1890 a 1893 conheceu diretamente a fome na Índia, sua miséria, nobreza e sabedoria espiritual, que levaria consigo em sua viagem ao Ocidente. Depois de atravessar o país de norte a sul, chegou ao Cabo Camorim, onde teve uma visão. Viu que a Índia tinha uma missão no mundo moderno como potência de regeneração espiritual, mas percebeu que esta força não se tornaria efetiva enquanto suas condições sociais não melhorassem radicalmente. Precisava recolher fundos para escolas e hospitais e recrutar milhares de professores e trabalhadores. Foi quando tomou a decisão de ir aos Estados Unidos em busca de ajuda. Mais tarde essa decisão foi confirmada, quando o Rajá de Ramnad lhe sugeriu comparecer ao recém-anunciado Parlamento das Religiões em Chicago. Assim, essa específica oportunidade serviria ao propósito de Naren. Em fins de maio de 1893, tomou o navio em Bombaim, via Hong Kong e Japão, para Vancouver, de onde alcançou Chicago por trem.
Após o encerramento do Parlamento das Religiões, Vivekananda permaneceu quase dois anos inteiros fazendo palestras em vários lugares do leste e do centro dos Estados Unidos, principalmente em Chicago, Detroit, Boston e Nova York.
Em primeiro de maio de 1897, convocou uma reunião dos discípulos de Ramakrishna – monges e chefes de família – a fim de fundar e construir sua obra. Propôs a integração dos serviços educacionais, filantrópicos e religiosos; foi assim que a Ramakrishna Mission e o Ramakrishna Math (mosteiro) surgiram. A Missão entregou-se ao trabalho imediatamente, participando do socorro nas calamidades e na luta contra a fome, e fundando seus primeiros hospitais e escolas. Elegeram Brahmananda seu primeiro presidente. Vivekananda entregou-lhe todo o dinheiro recolhido na América e na Europa. Feito isso foi obrigado a pedir alguns centavos para atravessar o Ganges de balsa. Desde então, insistiu em compartilhar da pobreza de seus gurubhais, irmãos monges.
O mosteiro foi consagrado algum tempo depois, em Belur, a pouca distância do Templo de Dakshineswar, na margem oposta do Ganges. É o mosteiro principal da Ordem Ramakrishna, hoje com mais de 100 centros afiliados na Índia e em terras asiáticas vizinhas. Os monges devotam-se à vida contemplativa, ao serviço social, ou à combinação das duas atividades. A Ramakrishna Mission possui seus próprios hospitais e dispensários, faculdades, escolas secundárias, agrícolas e industriais, bibliotecas e editoras, dirigidos por monges da Ordem.
Em junho de 1899, Vivekananda embarcou para sua segunda visita ao Ocidente, levando em sua companhia Nivedita e Swami Turyananda, um de seus gurubhais. Desta vez ele veio pela Europa e Inglaterra, mas passou a maior parte do ano seguinte nos Estados Unidos. Foi à Califórnia e deixou Turyananda lecionando em São Francisco. Era desejo de Vivekananda fundar centros de Vedanta no Ocidente. Atualmente, há treze centros e quinze subcentros nos Estados Unidos e um centro [com muitos subcentros] em cada um desses países: Argentina, Brasil [com 3 subcentros], Canadá, Holanda, Suíça, Japão, Rússia, Singapura, Ilhas Fiji, Maurício, Austrália, Malásia, Alemanha, África do Sul, Inglaterra e França.
De volta à Índia, Vivekananda era um homem muito doente; revelara que não esperava viver por muito mais tempo. Sentia-se, porém, feliz e tranqüilo. Parecia contente de poder relaxar da energia e ansiedade que consumiram seus anos de ação no mundo. Agora, almejava apenas a paz da contemplação.
Há quem diga que a despedida de Vivekananda deste mundo, em quatro de julho de 1902, no Mosteiro de Belur, teve a aparência de um ato premeditado. Alguns meses antes ele começou a livrar-se de suas diversas responsabilidades e a treinar sucessores. Sua saúde havia melhorado. Tomou a refeição do meio dia com apetite, discutiu filosofia, caminhou cerca de três quilômetros. Ao cair da noite, entrou em profunda meditação e seu coração parou de bater. Durante horas procuraram reanimá-lo, mas aparentemente seu trabalho havia sido concluído e Ramakrishna lhe devolvera a chave do tesouro.
Vivekananda foi um grande devoto, mas não proclamava a todos sua devoção. Sua recusa em fazê-lo era uma decisão fundamentada. Após seu regresso à Índia, falando de seu trabalho nos Estados Unidos, ele disse: "Se tivesse pregado sobre a personalidade de Ramakrishna, poderia ter convertido metade do mundo. Porém esse tipo de conversão dura pouco. Em vez disso, ensinei os princípios de Ramakrishna. Se as pessoas aceitarem esses princípios, eventualmente aceitarão a personalidade por trás deles."
A melhor introdução a Vivekananda, porém, não é ler sobre sua vida, mas ler seus livros. A personalidade do Swami, com toda a força, encanto, coragem, autoridade espiritual, vigor e bom humor, com que impacto nos alcança por intermédio de seus escritos e anotações!
Excertos de "O Que é Religião?"
Editora Lótus do Saber
SWAMI Vivekananda
